Formação histórica e sociológica
Uma religião simples em sua manifestação e profunda em suas raízes
Não se pode compreender a Umbanda, simples em sua manifestação religiosa, mas complexíssima em sua formação histórica e sociológica, sem recorrer aos seus muitos elementos formativos. Eles integram as manifestações mágicas, místicas e religiosas do povo brasileiro desde os tempos da colonização portuguesa.
O Movimento Umbandista, historicamente, bebeu nas fontes de cultos ainda mais antigos, como a pajelança, o catimbó, a cabula, o candomblé, o tambor de mina e a macumba.
A Umbanda nasceu do amálgama — a união de diferentes elementos — entre o Catolicismo, o Espiritismo, a Magia Branca Europeia, o Africanismo e as práticas místicas dos povos indígenas brasileiros. É um grande cadinho das almas, refletindo a grande e sagrada diversidade religiosa brasileira.
Encontros, influências e transformação cultural
Quando o negro africano aportou no Brasil, trouxe em sua bagagem apenas sua cultura, mas ela não veio organizada nos porões negreiros. A cultura religiosa africana era praticada por etnias, e os escravizados não tiveram a possibilidade de se agrupar dessa maneira.
Por isso, suas práticas religiosas em solo escravagista tiveram de ser redefinidas, dando início a processos de sincretismo e incorporando influências dos costumes regionais brasileiros. A cultura religiosa africana praticada aqui já não seria exatamente a mesma praticada em sua terra de origem. Havia também dificuldade para encontrar ervas, plantas e objetos específicos utilizados no louvor às suas divindades.
Com o passar do tempo, a influência cultural, social e religiosa brasileira se fez sentir entre os escravizados, impondo novos ritmos aos cultos africanos originais. As fugas e o contato mais próximo com os povos indígenas permitiram o conhecimento de outras práticas religiosas, algumas semelhantes às africanas, que passaram a ser integradas ou praticadas paralelamente.
Os conhecimentos religiosos africanos eram transmitidos oralmente. Com a morte ou a fuga dos mais antigos, a preservação do conhecimento original ficou prejudicada. Aqueles que ainda possuíam parte dele passaram a compartilhá-lo e a atender às necessidades espirituais dos seus grupos.
Em razão dessas aproximações e influências, a miscigenação e a associação de culturas tornaram-se inevitáveis. Novas culturas, mais ou menos próximas das originais, passaram a existir.
Da Macumba à Umbanda
Identidade, reconhecimento e compromisso com a caridade
A libertação dos escravizados não lhes trouxe liberdade plena. Sem moradia e trabalho, muitos foram empurrados para as periferias e tiveram de buscar diferentes meios de sobrevivência. Ao mesmo tempo, muitos brancos, ainda que de forma escondida, recorriam aos conhecimentos espirituais negros em busca de curas, auxílio ou resultados em seus negócios.
Macumba é o nome de um instrumento musical — e também da madeira utilizada em sua construção. Como o instrumento era empregado em algumas sessões religiosas, o termo passou a ser utilizado, muitas vezes de maneira pejorativa, para definir práticas religiosas negras.
Com o passar do tempo e diante das necessidades sociais, essa manifestação foi redefinida e identificada, em 1908, por uma entidade espiritual chamada Caboclo das Sete Encruzilhadas. Para muitos umbandistas, esse acontecimento representa a própria criação da Umbanda no Brasil.
A partir desse reconhecimento, abriu-se espaço para a formação de diferentes concepções da religião. Apesar das muitas denominações, o objetivo essencial permanece: praticar a caridade e buscar a evolução dos seres espirituais, dos médiuns, dos frequentadores e de todos os que se aproximam da Umbanda.
A Umbanda ainda enfrenta intolerância fora e dentro de suas próprias fileiras. Externamente, ocorre quando outras religiões atacam seus símbolos e autoridades. Internamente, manifesta-se quando umbandistas consideram suas práticas mais puras, eficazes ou sagradas que as demais.
Quando os próprios umbandistas puderem conviver com suas diferenças e diversidades, terão dado um passo valioso em direção ao respeito que desejam receber dos praticantes de outras religiões.
Uma religião sem órgão centralizador
Por que existem diferentes Umbandas?
O desdobramento de uma religião em vertentes é um fenômeno antigo. Ele pode acontecer pela busca de adaptação religiosa, pela influência de crenças anteriores e pelo movimento natural de uma tradição que incorpora práticas de outras culturas.
Ao tratar de Umbanda, é importante perguntar: qual Umbanda você pratica? Pode parecer estranho para quem está começando, e até para algumas pessoas mais antigas de terreiro, que existam diversas Umbandas.
A Umbanda não é uma religião centralizada. Não possui um órgão centralizador, um representante máximo ou uma codificação única. Ela é formada por práticas e manifestações indígenas, africanas, afro-brasileiras, católicas, espíritas e mágicas que contribuíram para a formação do povo brasileiro.
Formatada no plano material pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por meio da mediunidade de Zélio Fernandino de Morais, a Umbanda é um organismo vivo. Cada casa pode possuir doutrina, forma de culto, liturgia e teologia próprias.
Esses são os pilares centrais da Umbanda. Se algum deles não estiver presente no discurso e, principalmente, nas atitudes, não se pode afirmar que aquela prática representa a essência da religião.
Historicamente, aceita-se a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em 15 de novembro de 1908, como o início da Umbanda. Entretanto, ela reuniu práticas já encontradas em outras culturas religiosas. Por isso, pode-se dizer que a Umbanda não foi simplesmente criada, mas homologada, formatada ou fundamentada.
O termo “original” pode ser utilizado para a Umbanda trazida por Zélio e presente na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Já o termo “tradicional” pode indicar casas que seguem determinada tradição ou que permanecem próximas de tradições anteriores.
A Umbanda praticada no Brasil não é africana nem uma derivação exclusiva do Candomblé. O guia-chefe fundador de uma casa pode trazer sua própria liturgia e forma de culto, mantendo o núcleo da Umbanda por meio da caridade, da simplicidade e da humildade.
As cores das velas podem mudar; pode haver ou não culto aos Orixás; a casa pode possuir influência mais africana ou indígena. Ainda assim, pode ser Umbanda. Uma prática não deve ser utilizada para desqualificar todas as outras.
As diferenças de culto são chamadas de vertentes. Se levássemos essa ideia ao extremo, poderíamos dizer que uma nova vertente surge a cada casa aberta. A seguir, estão algumas das vertentes mais conhecidas, sem pretensão de representar consenso entre todos os umbandistas.
Escola ou vertente
Umbanda Branca
Tida como a Umbanda original, é a vertente fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas por meio do médium Zélio Fernandino de Morais. Também é conhecida como Umbanda Branca e de Demanda. Em seu princípio, recebeu o nome de Alabanda ou Allabhanda.
Cultua os santos, que podem ser sincretizados com os Orixás, compreendendo também Orixá como um termo aplicado a um espírito elevado, como no caso do Orixá Mallet, falangeiro da Linha de Demanda.
Suas sete linhas são: Linha de Oxalá, Linha de Ogum, Linha de Euxosse, Linha de Xangô, Linha de Nhã Shan, Linha de Almanjar e Linha das Almas. As entidades que mais se manifestam são Caboclos e Pretos-Velhos. Não utiliza atabaques ou palmas, e as velas são brancas.
Umbanda Esotérica ou Mirim
Umbanda Mirim
Fundada pelo Caboclo Mirim por meio do médium Benjamin Gonçalves Figueiredo, possui sua origem ligada à Tenda Espírita Mirim. Há narrativas segundo as quais Benjamin teria sido preparado pelo próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas para dar continuidade ao trabalho.
O Caboclo Mirim modificou práticas litúrgicas e apresentou uma nova compreensão das sete linhas, retirando santos católicos e distanciando os Orixás dos modelos africanos. As linhas foram organizadas como Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iofá, Ibejis e Iemanjá. Também considera Obaluaiê, Oxum, Iansã e Nanã em sua ritualística.
Instituiu graus para os médiuns: Cabeça de Bojá-Mirim, Cabeça de Bojá, Cabeça de Bojáguaçu, Cabeça de Abaré-Mirim, Cabeça de Abaré, Cabeça de Abaréguaçu e Cabeça de Morubixaba.
Manifestam-se preferencialmente Caboclos e Pretos-Velhos. Não se utilizam guias, velas, bebidas, atabaques ou imagens durante suas sessões e cerimônias.
Raiz de Pai Guiné
Aumbhandã
Escola fundada pelo médium Woodrow Wilson da Matta e Silva, também conhecida como Umbanda Esotérica, Umbanda de Pai Guiné ou Raiz de Pai Guiné.
Essa vertente valoriza um aspecto esotérico oriental, utiliza pontos riscados fluídicos e organiza suas sete linhas como Orixalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yemanjá, Yori e Yorimá.
Não cultua santos católicos nem Orixás africanos. As linhas são geralmente representadas por seus pontos riscados. Trabalha preferencialmente com Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças. Os Exus atuam paralelamente, considerados entidades de Quimbanda.
Rivas Neto, filho de santé de Matta e Silva, fundou a Umbanda Iniciática. Roger Feraudy criou a Aumpram. Essas escolas compartilham a compreensão de que a Umbanda corresponde a um conhecimento milenar disponibilizado à humanidade e reinterpretado ao longo das eras.
A Umbanda do povo e dos guias
Umbanda Popular
Também chamada Umbanda Simples ou Umbanda Tradicional, não deve ser confundida automaticamente com Umbandomblé, Candombanda, Cruzada ou Umbanda Traçada.
São Umbandas formadas no interior de uma casa, sem que sua estrutura seja difundida como uma rede. A forma de culto é conduzida pelos guias e pode variar completamente entre terreiros. Por isso, muitas casas que não pertencem a vertentes difundidas são agrupadas nessa categoria.
Podem ser cultuados santos e Orixás conforme a orientação dos guias-chefes. Trabalham Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, Exus, Pombagiras, Baianos, Marinheiros, Mineiros, Boiadeiros e Malandros, entre outras linhas.
Pode haver atabaques, música, velas coloridas, fumo, bebidas, oferendas e entregas, mas essas práticas dependem dos fundamentos de cada casa.
Umbanda Traçada
Umbanda Omolocô
Vertente criada por Tatá Tancredo, Tancredo da Silva Pinto. Possui forte influência africana e é considerada uma das que mais se aproximam do Candomblé.
Utiliza abertamente o sincretismo entre Orixás e santos católicos e reúne diversas linhas de trabalho também encontradas nas Umbandas Populares. Pratica o sacrifício ritualístico e possui inclinação para o Candomblé Nagô ou Yorubá.
Tradição angolana
Umbanda de Almas e Angola
Derivada de um Candomblé de tradição angolana, relaciona-se ao Candomblé de Caboclo, ao Candomblé de Almas e ao Candomblé de Angola.
Muito comum na região Sul do Brasil, considera como trabalhadores os Caboclos de diferentes Orixás, os Pretos-Velhos e as Crianças. Possui forte presença do povo das águas e de Iemanjá, Oxum, Nanã e, para algumas casas, Iansã: Iemanjá ligada ao mar, Oxum aos rios, Nanã às lagoas e Iansã às tempestades.
Tronos e pares vibratórios
Umbanda Sagrada
Vertente criada por Rubens Saraceni conforme fundamentos atribuídos a Pai Benedito de Aruanda e a Ogum Megê Sete Espadas.
Reestruturou as sete linhas em pares vibratórios chamados tronos: Trono da Fé, com Oxalá e Logunan ou Oyá Tempo; Trono do Amor, com Oxum e Oxumaré; Trono do Conhecimento, com Oxóssi e Obá; Trono da Justiça, com Xangô e Egunitá ou Oro Iná; Trono da Lei, com Ogum e Iansã; Trono da Evolução, com Obaluayê e Nanã Burukê; e Trono da Geração, com Iemanjá e Omulu.
Possui fundamentos, cosmogonia e cosmovisão próprios, difundidos por cursos de teologia de Umbanda, desenvolvimento mediúnico, sacerdócio e diferentes graus de magia divina.
Trabalha com todas as linhas, considerando a existência de Caboclos, Pretos-Velhos e outras entidades relacionadas às diversas vibrações e aos pares energéticos denominados tronos.
Umbanda Kardecista
Umbanda de Mesa Branca ou Cáritas
Possui forte influência do Espiritismo e é praticada em centros espíritas que passaram a desenvolver giras de Umbanda junto às sessões espíritas tradicionais.
É uma das vertentes mais antigas, embora não exista registro preciso da data ou do local em que começou a ser praticada. Não cultua Orixás nem santos católicos.
Os trabalhos são realizados por Caboclos, Pretos-Velhos e, mais raramente, Crianças. A roupa branca é a única vestimenta. Não utiliza guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas ou atabaques.
Uma tradição em contínuo movimento
Outras vertentes e um mesmo compromisso essencial
Além das escolas apresentadas, encontram-se a Umbanda Guaracyana, a Umbanda Batuque, a Umbanda dos Sete Reinos, a Umbanda dos Sete Raios e a Umbanda Astrológica, entre muitas outras. Novas vertentes continuarão surgindo com a graça de Zambi, Tupã e Olodumaré.
Ao conhecer uma vertente, o mais importante é compreender sua condição, sua relação com a comunidade de médiuns e frequentadores e a forma como suas práticas são conduzidas.
A Umbanda não cobra por atendimentos, desenvolvimento mediúnico ou ensinamentos de suas práticas ritualísticas básicas. É prudente observar com atenção quando uma prática se afasta desse princípio.
Entre as referências mencionadas no documento estão os fundamentadores das vertentes apresentadas e Leal de Souza, que escreveu sobre a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.